Inventário Cultural Participativo
O que é o Inventário Participativo?
O Inventário Participativo Cultural da cidade de Piracuruca/PI buscou mobilizar a comunidade para o reconhecimento, a documentação e a valorização de seu patrimônio cultural, material e imaterial, promovendo a participação social na construção de estratégias de preservação/registro, contribuindo para o fortalecimento das identidades piracuruquenses e o exercício da cidadania, por meio da produção de inventários culturais participativos. Aqui estão mapeados alguns dos principais espaços já preservados, tombados, registrados, bem como outros lugares, objetos, formas de expressão, celebrações e saberes, oriundos de informações que fomos colhendo ao longo das experiências com a cidade. Mestras/Mestres dos saberes ancestrais, lideranças de povos e comunidades tradicionais, lugares nunca registrados, pessoas ainda consideradas desconhecidas, foram construindo uma teia de indicações e significados que nos levaram a percorrer muitas outras “cidades invisíveis”. Durante nossas andanças para a construção desse material, realizamos diversos diálogos que nos permitiram conhecer outras pessoas, lugares, festas/celebrações, oportunizando a organização de entrevistas, acervos fotográficos, rodas de conversa, oficinas.
Missão
Documentar e preservar o patrimônio cultural material e imaterial de Piracuruca através da participação comunitária.
Visão
Ser referência em inventário cultural participativo no Piauí, promovendo o reconhecimento e valorização das tradições locais.
Valores
Respeito à diversidade cultural, valorização do conhecimento popular e compromisso com a preservação patrimonial.
Comunidade
Envolver moradores, pesquisadores, educadores e visitantes na construção coletiva do inventário cultural.
O IPHAN E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO NACIONAL BRASILEIRO
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura que responde pela preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro. Cabe ao Iphan proteger e promover os bens culturais do País, assegurando sua permanência e usufruto para as gerações presentes e futuras.
O Iphan possui 27 Superintendências (uma em cada Unidade Federativa); 37 Escritórios Técnicos, a maioria deles localizados em cidades que são conjuntos urbanos tombados, as chamadas Cidades Históricas; e, ainda, seis Unidades Especiais, sendo quatro delas no Rio de Janeiro: Centro Lucio Costa, Sítio Roberto Burle Marx, Paço Imperial e Centro Nacional do Folclore e Cultura Popular; e, duas em Brasília, o Centro Nacional de Arqueologia e Centro de Documentação do Patrimônio.
O Iphan também responde pela conservação, salvaguarda e monitoramento dos bens culturais brasileiros inscritos na Lista do Patrimônio Mundial e na Lista o Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, conforme convenções da Unesco, respectivamente, a Convenção do Patrimônio Mundial de 1972 e a Convenção do Patrimônio Cultural Imaterial de 2003.
Histórico – Desde a criação do Instituto, em 13 de janeiro de 1937, por meio da Lei nº 378, assinada pelo então presidente Getúlio Vargas, os conceitos que orientam a atuação do Instituto têm evoluído, mantendo sempre relação com os marcos legais. A Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 216, define o patrimônio cultural como formas de expressão, modos de criar, fazer e viver. Também são assim reconhecidas as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; e, ainda, os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
Nos artigos 215 e 216, a Constituição reconhece a existência de bens culturais de natureza material e imaterial, além de estabelecer as formas de preservação desse patrimônio: o registro, o inventário e o tombamento.
O IPHAN/PI E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO
A ação do IPHAN no Piauí foi iniciada na década de 1930, quando ocorreu o tombamento de monumentos nas cidades de Oeiras (1939) e Piracuruca (1940). Na reestruturação do Iphan, em 2004, a gestão do patrimônio cultural no Estado foi administrativamente separada do Ceará, constituindo a 19ª Superintendência Regional (Portaria nº 209, de 28 de maio de 2004). Posteriormente, houve a transformação da Regional na atual Superintendência do Iphan no Estado do Piauí. Essa reestruturação aumentou a capilaridade e a presença do Instituto no território nacional.
Conjuntos urbanísticos, sítios arqueológicos e paleontológicos, bens móveis e imóveis, festas, ofícios, celebrações e tantos outros bens culturais mostram a diversidade do patrimônio existente no Estado e representam sua história e riqueza cultural. É no Piauí que está o registro mais antigo da presença do homem na América do Sul, preservado no Parque Nacional Serra da Capivara – declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO (1991) e tombado pelo Iphan (1993). A Produção Tradicional e Práticas Socioculturais Associadas à Cajuína no Piauí é um bem imaterial registrado e novos inventários culturais de outros bens imateriais ocorrem em diferentes áreas do Estado.
A Superintendência tem promovido a identificação e o reconhecimento de bens culturais, em parceria com diversos segmentos da sociedade, instituições públicas e privadas, e órgãos dos poderes judiciário, executivo e legislativo locais. Desta forma, o Iphan trabalha na construção e implementação de políticas de identificação, preservação e promoção deste patrimônio. São desenvolvidas, ainda, atividades de Educação Patrimonial e divulgação das políticas de preservação visando a apropriação dos bens culturais pela população, o que contribui para a reafirmação de sua identidade, melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento social de diferentes localidades.
Caminhos e descaminhos de um inventário participativo
Para escrevermos este inventário, resolvemos contar histórias do início ao fim! Parece redundante dizer isso, mas desaprendemos a contar histórias do nosso jeito! Histórias que não precisam preencher todos os requisitos de um formato acadêmico-científico, em que tudo precisa ser validado por uma enxurrada de autores, teorias e conceitos, que nos “arrancam os cabelos” e que, não poucas vezes, nos fazem refletir sobre “obviedades” ditas em muitos lugares mas em formatos diferentes.
No exercício cotidiano de experimentar o mundo, por via de percursos eivados de significados já previamente construídos, o que tentamos fazer neste inventário foi dar espaço para o aparecimento de muitas vozes dissonantes em Piracuruca/PI, e que só podem ser ouvidas a partir de sensibilidades, quase ancestrais, retornando às nossas intuições humanas, sem querer encontrar caminhos previamente determinados ou roteiros com início, meio e fim.
Nada contra a ciência, os conceitos, autores e teorias, jamais será este um inventário produzido sob a égide da concordância com os negacionismos científicos. Todavia, pensar a trajetória de saberes, lugares, pessoas, objetos, formas de expressão, categorias já preenchidas por tantas definições: científicas, cristãs, ocidentais, capitalistas que, na ânsia de nomear as diversas formas de estar no mundo, limita ou invisibiliza a nossa capacidade de acessar outras vias. Portanto, este inventário tem o objetivo, bastante audacioso, de dar espaço ao imponderável e ao que não precisa de tantas explicações. Aqui não estamos em busca da produção de consensos, sejam eles científicos ou não, pois as contradições humanas nos interessam mais.
Diante de tal desafio, o exercício da escrita ou a tentativa de construir algo diferente do que costumamos ler, ouvir, apesar de outras experiências exitosas de inventários participativos, tentamos aqui dar espaço ao imponderável, ao jogo de palavras sem as amarras acadêmicas, a liberdade e a ousadia de “poetizar” experiências, materiais ou não, e que não podem ser enquadradas em caminhos monolíticos ou categorias fechadas.
Mesmo em meio aos nossos amadorismos poéticos e graus de maturidade diversos, visto ser esta uma equipe composta por escritores mais experientes e estudantes iniciando seus percursos profissionais, resolvemos começar os nossos trabalhos com uma decisão: construir um inventário que fuja dos roteiros tradicionais, que dê espaço para a criatividade, trabalhando sempre com a ideia de um texto aberto, e que ajude o leitor a caminhar conosco pelas ruas de Piracuruca, recriando conosco lugares, objetos, saberes, formas de expressão, celebrações. Um ponto de partida, um começo, uma toalha de renda que nunca estará pronta e nem deve estar!
As várias cidades que habitam em nós
A experiência deste inventário participativo nos mostrou a força do empírico da ciência construída no cerne das sensibilidades, no cotidiano, na relação que os sujeitos estabelecem com os patrimônios históricos culturais, sejam eles reconhecidos ou não.
Diante desse difícil exercício de desprendimento e, por que não dizer, desaprendizado, muitas outras cidades vão surgindo ao longo do caminho. Conhecemos lugares, pessoas, mestres, saberes e fazeres, focados nas experiências de escuta, conexões humanas, que formam um pesquisador que não vê sua pesquisa como mero objeto mas como força que o movimenta. Conversamos com pessoas que nunca leram Foucault, mas entendiam perfeitamente a relação de poder da microfísica dos poderes, que nunca leram Gruzinski mas experienciavam diariamente os hibridismos, não leram Certeau mas viviam as táticas e estratégias do cotidiano. Diante disso, devemos ler os não-ditos, ir além e perceber que há ciência nas ruas, nas experiências. Ouvir as pessoas, suas relações com a cidade, ouvir a própria cidade reverberando por meio de seus habitantes.
Patrimônio é o que a gente escolhe
Tornou-se evidente que o patrimônio, para os moradores de Piracuruca, ultrapassa os limites dos prédios históricos e dos bens oficialmente reconhecidos, é relação de apropriação, de posse, não a posse material, baseada no lucro e nas relações de mercado, mas numa negociação infinita em que vão se trocando lugares, numa ciranda sem dono. Lembranças de família, festas religiosas, objetos guardados com cuidado, fazeres artesanais, narrativas sobre a cidade, práticas comunitárias e que vão fundando novos modos de existir e de se apropriar do mundo.
As experiências descritas neste relatório revelam diferentes formas de pertencimento e mostram como memória e patrimônio são continuamente construídos através das relações entre pessoas, espaços e afetos. Em muitos momentos, os interlocutores não falavam apenas sobre objetos ou lugares importantes, mas sobre suas próprias trajetórias, suas dores, lembranças, crenças, alegrias e formas de compreender a cidade.
Este exercício de escrita buscou preservar a atmosfera dos encontros e valorizar as narrativas compartilhadas durante conversas leves e prazerosas, entendendo um inventário participativo não apenas como instrumento técnico de documentação, mas como prática e exercício de escuta e (re)aproximação. Em vários momentos, as experiências observadas aproximam-se daquilo que Veena Das descreve como a dimensão ordinária da vida, onde memória, dor, afeto e cotidiano se entrelaçam de maneira muitas vezes silenciosa. Em vez de reduzir as experiências a categorias fixas, a proposta é acompanhar os modos como cada pessoa atribui sentidos ao que considera importante preservar.
Timeline do Projeto
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Mapeamento e documentação de LUGARES

Um estudos sobre os objetos que...

Mapeamento e documentação das Celebrações que...

Mapeamento e documentação de Formas de Expressão que...
A EQUIPE
Pesquisadores e Colaboradores
Pesquisadores(as), colaboradores(as), bolsistas que participaram do Inventário Participativo Cultural da cidade de Piracuruca/PI.
Agostinho Coe
Coordenador geral
Departamento de História/UFPI e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia/UFPI. No contexto da pandemia da COVID-19 em 2020, nas suas incursões por novas descobertas e sentidos para a vida, deparou-se com a oportunidade de conhecer comunidades quilombolas e indígenas, a partir do Projeto de Extensão Saberes e Fazeres Afro–indígenas no Piauí. Completamente seduzido pelas histórias de lutas e resistências dos Povos e Comunidades Tradicionais do Piauí, conectou-se com as matas, os encantados, de forma que já não consegue passar muito tempo distante das confluências ancestrais. Hoje coordena o Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão com Povos e Comunidades Tradicionais – “PIAUÍAFROINDÍGENA”, voltando todas as suas experiências de pesquisa para estabelecer confluências com comunidades indígenas, comunidades quilombolas, povos de terreiro, dentre outras possibilidades de conexões ancestrais.
Ana Célia de Sousa
Pesquisadora
Ana Célia de Sousa Silva transita entre a antropologia, a arte e a educação. Professora, pesquisadora e mestranda em Antropologia, investiga as relações entre cultura, memória, patrimônio e manualidades, interessada nos modos como objetos, imagens e saberes cotidianos narram experiências coletivas.
Francisco Helton da Silva Filho
Pesquisador
Historiador dos bons, Piripiriense, sorriso largo, amante das ervas naturais, trouxe sensibilidade e experiência de quem se permite muitos mundos. Ao final desse inventário já será pai do Ulisses.
Milca Fontenele
Pesquisadora/colaboradora
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Beatriz Melquiades
Alex
Kaio
